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(english version coming soon)

A arqueologia da afeição

Podemos tentar aproximar-nos do trabalho de Frau Baader (Bremen, Alemanha, c. 1950 ) a partir de duas ideias principais que estão intimamente relacionadas: a imagem enquanto reabilitação psicológica e a representação da memória enquanto reestruturação da identidade individual.

A artista procura realçar a condição subjectiva e difusa da memória ao utilizar figuras pálidas,  pouco afirmativas e sem preocupação no detalhe que são visíveis nos trabalhos de pintura.

Esta recorrência à representação de montanhas – gélidas, silenciosas, caracterizadas com inexactidão e de uma forma evasiva – mostra a permanência de um espectro de memórias  que envolve todos estes trabalhos numa atmosfera mística própria e que detém um fundo  simbólico que se refere às próprias vivências de Frau Baader.

É nessa fugacidade, nesse quase apagamento da memória e na predilecção por um registo solto, que a artista evidencia uma procura e uma necessidade urgente de identificação com memórias passadas, e que lhe serve de processo de criação de um repositório psicológico da  memória visual. É pelo facto da artista assumir uma condição psicológica instável, de crise  emocional, que a leva a questionar tudo, a sentir urgência nessa procura de ambientes e de imagens familiares e a pensar nos efeitos e processos de evocação da memória, questões que,  através da sua obra, tornam-se fundamentais como matrizes de afirmação de identidade.

Freud recorreu ao termo Heimlich para aludir a essa necessidade de nos reunirmos de  sensações seguras, de imagens de nos remetem para uma sentimento de pertença e de  retorno ao mesmo: ao que vivenciámos e que nos provocam familiaridade.

Ao mesmo tempo, a proposta de Frau Baader desloca-se no sentido de, não só aferir sobre o  processo de evocação dessa memória e identificação pessoal mas os efeitos da posse dessas  memórias no presente. Ao fazer essas imagens presença na vida real, reunindo fragmentos  que constroem a história e a substância dessas vivências e memórias, a artista resgata um  envolvimento afectivo passado mas também presente. O confronto entre a imaginação afectiva do passado e o presente vai utilizar a imagem como uma ferramenta para olhar a  interioridade, trazendo-a para fora de modo a compreender o resultado desse processo de  rememoração.

A artista convoca um espaço da memória psicológica que é sensível, frágil, evasiva e  descaracterizada de pormenores rodeando-se de imagens. É um destilamento, não de imagens  visíveis mas de sensações emocionais ou imagens mentais de afectos. É a energia afectiva da  artista trazida pelas imagens que é catalizadora de uma vivência apaziguada e possível.

Existe nestas obras um esvaziamento de um quadro de referências sociais e culturais que é  apenas visível na representação de um cacilheiro em FB6 (2012, Óleo e grafite sobre tela, 190  x 110 cm), de um Bonsai em FB3 (2012, Óleo e grafite s/ tela, 190 x 90 cm) das montanhas Dolomitas; o resto é todo um esvaziamento e diluição da forma, do traço e da cor, verificando-se uma tentativa de resguardo psicológico face ao acto de pintar. É essa paisagem da memória – não a realidade em si – o que resulta dessa convocação do pensamento do familiar e das  recordações agradáveis que não é mais do que uma destilação da memória; é um aglomerado  de todas as boas vivências da artista condensados numa paisagem. O que perdura dessa  vivência é a memória de Frau Baader e a representação do que essas experiências significaram  para a artista. A artista usa a imagem enquanto defesa ou enquanto reabilitação de um  estado emocional porque aquilo que evoca permite-lhe obter esse conforto ou repouso  psicológico. Logo, o processo de recordação e evocação é utilizado como ferramenta de  controlo e de apaziguamento de um estado psíquico. O cruzamento entre memórias de  vivências efectivamente adquiridas que se misturam com viagens idealizadas, identificadas  nas pequenas figuras do cacilheiro ou do Bonsai permite-lhe pontuar de características  reais esse acontecimento fictício – é o ter acontecido que se mistura com a vontade de ter  experienciado.

Frau Baader chama a atenção para a necessidade de estarmos rodeados de imagens, de  questionar o que essas imagens significam para nós e como estas constroem as nossas  referências afectivas que enformam o nosso universo de familiaridades. E é criando um álbum  de imagens psicológicas a partir do qual a artista constrói o seu repositório de afectos da  memória utilizando-o como base fundamental de identificação pessoal.